Hoje quem me derrubou da cama foi a realidade. Não precisou de despertador, nem do fiozinho de luz que o sol insiste em fazer entrar pela fresta da janela.

Acordei, mas custei a levantar. Levantar significava afirmação. Afirmação daquilo que eu sempre soube e nunca quis enxergar com clareza ou aceitar com convicção.

A gente sempre sabe a verdade dos fatos.

Mas eu precisava mais do que acreditar ou aceitar. Precisava quebrar essa consonância sem sentido que sempre teimei em insistir fazer entre a minha imaginação, os castelos deformados de areia que ergui e as possibilidades, realidades, vontades.  Na verdade era tudo dissonante. Sem harmonia.

Levantei. Tirei o lençol da ilusão, guardei o meu até então, tão querido travesseiro, feito de vãs esperanças que ao invés de me embalarem o sono, causava-me insônia. Levantei com a força de quem sabe o que quer, e tem pulso e vontade de levar suas escolhas até o fim  mesmo que pedaços do coração fiquem ao longo da estrada.

E logo em seguida, eu caminhei. Dei passos descalça ao sair da cama pra sentir de novo o frio agora tão agradável que o chão me causava. Chão de verdade. Chão que em contato com meus pés quentes se esparramava em novas sendas. E parafraseando a Alice Ruiz repeti para mim mesma que é preciso “ir ao encontro do que me espera”.

Foi-se o tempo em atei mãos, pés e coração numa ausência. A despedida se cumpriu. Sem perdas. Nem luto.

Quanto ao que me espera, sei muito pouco. Ainda é cedo demais.

O que importa, é que estou indo.

Alice Martins